Filhos: tê-los ou não!

Vou falar sobre um assunto totalmente inspirada (e com autorização) em uma crônica escrita por minha amiga blogueira Mônica Montone.
Um breve relato pra quem ainda não teve o prazer de conhecer: Mônica Montone é psicóloga, escritora, cantora e agora também roteirista e diretora de seu curta metragem (desculpe se esqueci de citar algo).
Mantém um blog chamado Fina Flor e um dia tive o privilégio de neste mundo blogueiro, receber um comentário seu em meu blog. Desde então ir ao seu blog tornou-se um prazer diário.
Semanas atrás ela escreveu uma crônica na Revista O Globo, intitulado "Filho é Pra quem Pode", que provocou uma verdadeira polêmica, virando assunto até no Fantástico, no programa Happy Hour, no programa Sem Censura, em seu blog e em várias rodinhas de amigos, como no meu caso.
Pra quem quiser ler (e vale a pena), clique aqui.
Resumindo, a crônica é sobre filhos, ou melhor, sobre o fato dela não querer ter filhos.
Teve tudo quanto é tipo de comentário...teve quem entendesse, teve quem achasse absurdo, teve gente que falou que ela era louca, teve quem apoiasse, teve quem se identificou...

Proponho essa discussão também aqui, por que é tão absurdo assim uma mulher não querer, não sentir vontade ou necessidade de ser mãe?????
Sou mãe e sempre quis ser, mas entendo e concordo que muitas mulheres não tem essa vocação e algumas nem tem competência.
Sim, porque para ser mãe de verdade, tem que ter as duas coisas.
Antes de engravidar, as pessoas devem se perguntar: "É realmente isso que quero? Estou preparada para isso? Estou preparada para incluir uma pessoa em minha vida de forma definitiva? Estou preparada para mudar alguns hábitos? Sou capaz de amar alguém sem esperar nada em troca?"
Filho, principalmente nos primeiros meses, pede uma dedicação quase que integral.
As revistas pintam um mundinho cor-de-rosa e realmente ser mãe é maravilhoso, mas tem o lado prático da coisa.
A gente se perde no meio de fraldas, roupinhas, mamadas...depois vem os suquinhos, papinhas, frutinhas e etc, etc, etc.
É um círculo vicioso, pois nem bem terminamos de fazer uma coisa, já temos que recomeçar.
Nossos banhos passam a ser a jato, vaidade fica em segundo plano, uma noite inteira de sono? Esquece...vai demorar muito pra voltar a ter!
Namorar com seu marido? Parece que o bebê tem um sensor, é só a libido aparecer, que o choro dele vem junto...riso.
Enfim, ser mãe é infinitamente maravilhoso, mas tem um preço...e se você não tem ao seu lado um companheiro que entenda, respeite e te ajude, o preço aumenta em proporções fenomenais.
Portanto, acho compreensível que algumas mulheres não queiram isso para suas vidas.
Hoje em dia a maternidade está em segundo plano...a mulher pensa primeiro em estudar, ter uma profissão, se estabilizar e depois casar...daí talvez, quem sabe, ter um filho...mas só perto dos 30 anos!
Falo isso com base nas minhas amigas solteiras.
Conheço mulher que não quer casar.
Conheço mulher que quer casar, mas não quer filho.
Conheço mulher que é muito feliz sendo mãe.
Conheço mulher que mesmo sendo mãe, é infeliz.

Concordo quando a Mônica diz que não é certo, é egoísta projetar seus sonhos em um filho...assim como também concordo que é errado e perigoso achar que sua felicidade se vai, quando seu filho também vai...filho não pode ser encarado como garantia de felicidade para ninguém!
Colocamos um filho no mundo, mas ele não nos pertence, não é um objeto, uma roupa...é um outro ser, que tem idéias, pensamentos e vontades próprias. Tecer expectativas e querer que um filho corresponda a todas elas, é totalmente egoísta e garantia de sofrimento.
Também concordo que há várias maneiras de exercer o lado maternal, sem necessariamente ter um filho.
Tenho uma amiga que sua missão espiritual é trabalhar com crianças e ela não tem filhos. Trabalha no centro Kardecista que frequento e ministra ensinamento do Evangelho para crianças e adolescentes, se realiza dessa maneira.
Tenho uma tia emprestada, que ela e o marido não quiseram ter filhos, mas tem montes e montes de afilhados e sempre foram felizes assim...são pessoas que as crianças gostam de estar perto.

E decididamente tem mulher que não merece ser mãe...colocam o filho no mundo e jogam no lixo, no rio, pela janela, maltratam, exploram, ignoram, não são presentes, não cuidam...
Não existe ex-filho...filho é pra vida toda e se a pessoa não está disposta, não pode ou não tem vontade de abdicar de algumas coisas, adiar outras, mudar alguns hábitos e nunca cobrar absolutamente nada por isso, não deve mesmo ter!
Estamos aqui falando de mães, mas isso se aplica também a pais...muitos homens não querem ser pais.

Eu sempre quis ser mãe, se pudesse e se não achasse que esse mundo está muito louco, teria vários filhos! Mas, não queria somente ser mãe...queria gerar uma vida, senti-la crescer dentro de mim, parir, amamentar, dar banho, cuidar...queria o pacote completo!
Sim, sei que terá quem me critique, dizendo que há muitas crianças órfãs por ai, precisando de uma família...mas essa era uma vontade que eu tinha, um sentimento e uma experiência que queria e precisava passar.

Mônica, minha linda, achei um ato de muita coragem, maturidade e inteligência você admitir que não quer ter filhos. Não se incomode com as pessoas que não entendem e te chamam de louca...não há porque te recriminar, te julgar, nem te condenar...quem sabe da sua vida, é você!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mundo moderno



Outro dia estava conversando com um amigo que tem uma filha de 9 anos e que mudou de escola esse ano.
Mudança de escola às vezes é complicada para a criança, pois tem que se acostumar com o ambiente, os professores, o método de ensino e formar novas amizades.
Pior ainda, é quando a criança passa a ser rejeitada na turma, pelo simples fato de não possuir um celular!
Sim, isso mesmo...a menina está sendo isolada, passa a hora do recreio praticamente sozinha, pelo fato de não ter um celular e não ser aceita pela turma.
Mas, ela não tem um celular pelo fato do pai não poder dar; ela não tem um celular porque os pais não acham que seja necessário a uma criança de 9 anos.
Agora, vejam bem...estamos falando de crianças, que não tem mais do que 10 anos!

Antigamente as exclusões das turmas na escola se davam pelo fato da pessoa não ter um padrão de beleza considerado “compatível” com a turma...ou então, pelo fato de não praticar bem determinado esporte...esses eram os fatores determinantes, que faziam você ser ou não popular.
Eu nunca fui de um padrão de beleza espetacular e tampouco era fenomenal nas aulas de Educação Física, muito pelo ao contrário...era péssima em vôlei, jogava razoavelmente bem Handball e era aceitável jogando Basquete.
Nunca me senti rejeitada pela turma que escolhi e olha que meu padrão financeiro era abaixo dos delas, o que também poderia ser motivo de exclusão.
Talvez por eu me destacar em outras áreas dos estudos, talvez por ser a mais cara-de-pau, talvez por ser carismática ou talvez por ser amiga mesmo, não sei...o fato é que tive uma infância e adolescência normal, sem grandes humilhações ou mágoas.

Esse caso me fez parar e ver como cada dia mais as pessoas dão valor ao que você tem e não ao que você é! E isso se reflete também nas crianças...
É um verdadeiro absurdo que pra ser aceito nos grupos, você tenha que ter um celular...e não é qualquer celular não...se a criança chegar com um chinfrim, pode ser pior, virar motivo de riso. Tem que ser um V3 ou no mínimo um que seja colorido.
Daqui a pouco veremos crianças chegando às escolas com o Kit: notebook, celular e I-pod...não duvido nada que aquele que não tiver o kit, seja banido da turma.

Eu e no caso meu amigo, ensinamos nossos filhos que o importante é o que você é, que devemos ser aceitos por aquilo que somos na essência e não por aquilo que temos.
Daí seu filho chega em casa humilhado, triste, se sentindo rejeitado, excluído e com risco até mesmo disso afetar no rendimento escolar...o que fazer?????
O que faz um pai que tem a convicção de que é totalmente desnecessário uma criança de 9 anos ter um celular, mas que também não quer que seu filho seja o ET da escola?
É uma situação delicada.

Crianças nessa idade estão em formação e uma grande humilhação ou um sentimento forte de rejeição, pode provocar danos muito sérios.
Já cansamos de ver casos de adolescentes rejeitados que tomam atos extremados, principalmente nos EUA, aonde o preconceito é muito grande.
Crianças e adolescentes podem ser extremamente maldosos...

Mas, quem é que criou esse novo conceito?
A mídia que todo dia despeja em nossa casa propagandas de todos os tipos, com ofertas tentadoras, coloridas e irresistíveis?
Nós pais, que a cada dia estamos mais ocupados e tentamos compensar o tempo que não passamos ao lado dos nossos filhos, com presentes materiais?
O mundo violento em que vivemos, que faz com que nós pais fiquemos neuróticos com a segurança de nossos filhos e tentamos monitorá-los o tempo todo e de todas as maneiras?

Um caso a se pensar e pra ser discutido.


imagem: www.esistemas.com.br

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Crônica: Clarice Lispector



OS ESPELHOS

"O que é um espelho?
Não existe a palavra espelho - só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. - Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos?
Não são preciso muitos para se ter a mina faiscante e sonambúlica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente ad infinitum, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, reflexos dessa dura água.

- O que é um espelho? Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. - Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre sem parar: pois espelho é o espaço mais profundo que existe.- E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho.- A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como água se derrama.

- O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestí­gio da própria imagem - então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.

Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho que eu me vejo sou eu, mas espelho vazio é que é espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar num quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo.

Em outro instante, este muito raro - e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante - nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difí­ceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água.

Clarice Lispector - Para não esquecer.

Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

imagem: www.banheiroselavabos.com.br

terça-feira, 31 de julho de 2007

 
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