Poema: Tuas Mãos


Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

3 Comments:

Renato Bueloni Ferreira said...

Roda-se o mundo em busca do toque exato que nos transforme em viajantes sedentos por algo em tranquilos moradores de uma nova localidade. Neruda é sempre excelente!
bj

Jac C. said...

Mãos... responsáveis por bons e maus toques.
Pelo que se queira lembrar ou esquecer.
Mãos são sempre marcantes.

bjs e bom fim de semana, querida!

Cin said...

Adoro a poesia de Pablo Neruda!
Lindo!
Bjos!

 
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