Conto: Fitas de cetim



Sentado naquele café, ele pensava no que tinha feito de sua vida nos últimos anos.
Lembrava dos sonhos ambiciosos na época da faculdade: tornar-se um arquiteto de sucesso, com um escritório amplo, arejado, num andar bem alto de um edifício modernoso, aonde pudesse olhar a cidade de cima e vislumbrar em cada esquina um projeto seu!
Casar com Cecília, por quem era perdidamente apaixonado e ter dois...não, três filhos, sempre gostou de número ímpar.
Formou-se e aos poucos foi vendo seus sonhos arrojados serem engolidos pelas dificuldades econômicas do país.
Montou um escritório com mais dois amigos e dia após dia ficava esperando as coisas melhorarem, os clientes aparecerem...
Fazia um projeto aqui, outro ali, uma reforma e no final do mês os ganhos mal davam para pagar as contas.
Cecília dizia que era muito sonhador, que deveria ter os pés no chão e se render, fechando o escritório e procurando vaga em uma construtora.
Com sua teimosia em realizar seu sonho e com o pouco dinheiro que ganhava, viu o amor de Cecília ir minguando, até que um dia ela deu um basta e foi embora, levando consigo o outro sonho, o de casar e ter três filhos.

Mexeu seu café e suspirou...no final estava sozinho e tinha se rendido ao trabalho numa grande construtora. Trocara de carro, morava agora em um apartamento confortável...mas vazio.
Os sonhos?
A cada dia eram mais esquecidos, perdidos dentro daquela sala pequena e enfadonha aonde trabalhava.
Olhou ao redor e viu na mesa ao lado uma senhora segurando uma caixa de presente, embrulhada com uma fita de cetim vermelha.
Fita de cetim...sorriu...veio a sua lembrança uma imagem de 20 anos atrás.
Estava nos primeiros anos de escola e em sua sala de aula tinha uma menina que todos os dias ia com uma fita de cetim prendendo os cabelos, cada dia de uma cor. Sentava-se a sua frente e ele ficava meio que hipnotizado pelas cores das fitas balançando, acompanhando o movimento da cabeça. Olhava os cabelos lisos castanhos...ora presos num rabo-de-cavalo, ora presos em dois, um de cada lado da cabeça.
O nome dela era Gabriela...tornaram-se amigos, todos os anos ficavam na mesma sala e aos poucos a amizade tornou-se algo mais...seu primeiro amor!
As fitas de cetim sempre fizeram parte da vida dela. Quando ficou muito grande para usar rabos-de-cavalo, ela ou amarrava as fitas na mochila, ou nos braços, ou enfeitava os cadernos.
Perguntou um dia porque gostava tanto de fitas e ela rindo, sempre ria, lhe disse: “ah, elas me deixam feliz!”
Quando estavam no segundo grau ela mudou-se do país, o pai foi transferido e a família foi junto.
Pensando bem, nunca tinha se recuperado totalmente da partida de Gabriela...ainda a via entrando na sala de embarque do aeroporto chorando e dando tchau.
Num último ato de carinho, tirou a fita de cetim azul que tinha no pulso e deu a ele...”pra você nunca se esquecer de mim”, disse.

Com o tempo a saudade tornou-se apenas isso, saudade e raramente se lembrava dela.
Mas hoje, sentindo a amargura dos sonhos perdidos e vendo a fita de cetim, a saudade daquele tempo voltou e apertou seu coração.
Pagou o café e saiu para a rua, sentindo no rosto a quentura tímida do Sol de inverno.
Fechou mais o casaco e colocou as mãos nos bolsos...a Avenida Paulista naquela época do ano era muito fria!
Parou na calçada esperando o farol fechar para os carros.
Quando fechou e ia atravessar, olhou para um carro que havia parado. No banco de trás, com o rosto grudado no vidro estava uma menina de uns seis anos, cabelos castanhos lisos, presos em dois rabos-de-cavalo, amarrados com fitas de cetim vermelhas!
Ficou paralisado...a menina sorriu para ele, grudou mais o rosto no vidro e fez uma careta.
Ele olhou para o motorista e viu que era uma mulher. Devia ter mais ou menos sua idade, cabelos lisos, compridos, castanhos e no braço uma fita de cetim azul!
Deu um passo em direção ao carro, mas antes que pudesse fazer algo, o farol abriu novamente e o carro se foi.

Atravessou a rua automaticamente e entrou no edifício no qual trabalhava, nem ouvindo o bom dia do porteiro.
Quando chegou a sua mesa, abriu sua carteira e tirou de lá de dentro uma fita de cetim azul. Continuava do mesmo jeito de quando ganhou de Gabriela.
Num ato impulsivo, amarrou a fita na luminária sobre sua mesa, acima da prancheta e ficou olhando.
Um colega, que passava por trás e viu o que tinha feito, perguntou: “é um ato de solidariedade a alguma coisa?”
Ele sorriu e disse: “não...ela me faz sentir feliz...só isso...feliz!”

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

14 Comments:

Bia said...

Eba, serei a primeira a comentar seu primeiro conto, delícia!!!!
Achei ótimo, amiga...às vezes o passado volta com força total, né?
Agora, por que uma figura masculina no primeiro conto?
Fiquei curiosa...
Beijos

Edna Federico said...

Eita, começou cedo hoje, hein.
Obrigada, Bia.
Por que um homem? Sabe que não tinha parado pra pensar sobre isso...a idéia do conto veio já como sendo um homem, então fiz.
Talvez porque queira pensar que os homens também tem essas lembranças emotivas.

Renato Bueloni Ferreira said...

Belíssimo conto! ótima estréia no blog. E nós homens temos lembranças emotivas sim, e muitas.

Edson Marques said...

Edna,

Belíssima história!

Todos devíamos ter uma fita de cetim!


Abraços, flores, estrelas..



.

Edna Federico said...

Puxa, receber elogios de duas pessoas que escrevem tão bem como o Edson e Renato, me deixam muito feliz, obrigada!
Vou confessar que me dá um certo receio mostrar as histórias que escrevo, sempre acho que não estão boas.

Cinthia said...

Adorei tb!!!!
Beijo

Margarete said...

Parabéns, adorei!! Quero mais, quero mais....
Beijinhos

BABI SOLER said...

Nossa, que lindo Edna.
Fiquei emocionada.
Bjo!

Fábio Vanzo said...

Li e fiquei... feliz.

Cin said...

As pessoas nem imaginam como podem nos fazer felizes com simples gestos.
Adorei o conto.
Bjos querida.

Lata Mágica said...

Concordamos com o amigo Cin, pequenos gestos fazem a grande diferença.

Abraços dos amigos da Lata Mágica Recife.
Willam & Odilene

Ultra Violet said...

Lindo o conto.

Fiquei emocionada.

Por mais que as coisas na vida não aconteçam como a gente queria, nunca é tarde para sonhar os velhos sonhos.

Edna Federico said...

Vocês despertaram a "monstra escritora" que existia dentro de mim com tantos elogios, riso...obrigada!!!!!
Beijos

Rosana said...

Fofs
que conto mais fofo...doce doce como voce...
olha vc me faz viajar facil facil, então vamos lá...desperte a monstra escritora e me faça feliz...rs
QUERO MAISSSSSSSSSSSSSSSS

 
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